Debêntures simples ganham espaço como alternativa ao crédito bancário para capital de giro, avalia ID CTVM
Em meio à retração das emissões incentivadas, empresas recorrem a debêntures não conversíveis para alongar dívidas e financiar operações sem vinculação a projetos específicos de infraestrutura
O mercado brasileiro de debêntures atravessou um primeiro semestre de 2026 marcado por retração, com emissões totais de R$169,8 bilhões entre janeiro e junho, o menor volume para o período desde 2023. Dentro desse cenário mais desafiador, às debêntures simples, também chamadas de não conversíveis, mantiveram relevância como instrumento de financiamento corporativo por não estarem vinculadas a projetos específicos de infraestrutura, ao contrário das debêntures incentivadas, cujas emissões recuaram para R$ 14,8 bilhões nos primeiros meses do ano, ante R$ 25,4 bilhões no mesmo período de 2025. Voltadas ao reforço de capital de giro, ao alongamento do perfil de dívida e ao financiamento de planos de expansão sem direcionamento setorial obrigatório, às debêntures simples seguem como uma alternativa relevante ao crédito bancário tradicional para empresas de diferentes portes e setores, tema acompanhado de perto pela ID CTVM em sua atuação como escrituradora e custodiante desse tipo de título.
Flexibilidade de uso diferencia o instrumento
Diferentemente das debêntures incentivadas, que exigem a destinação dos recursos captados a projetos específicos de infraestrutura para usufruir de isenção fiscal aos investidores pessoa física, as debêntures simples não impõem essa vinculação, o que dá às empresas emissoras liberdade para direcionar os recursos conforme suas necessidades financeiras do momento, seja para reforçar caixa, financiar capital de giro ou alongar o perfil de vencimento de dívidas contraídas anteriormente. Essa flexibilidade torna o instrumento particularmente relevante em períodos de maior incerteza macroeconômica, quando empresas priorizam liquidez e previsibilidade financeira em vez de financiamento atrelado a projetos de longo prazo.
Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a retração nas debêntures incentivadas não significou perda de relevância do mercado de dívida corporativa como um todo.
“Empresas continuam buscando o mercado de capitais para financiar sua operação, mesmo em um ano mais desafiador para as debêntures vinculadas a projetos de infraestrutura. As debêntures simples cumprem esse papel com mais flexibilidade”, avalia o executivo.
Escrituração eletrônica sustenta agilidade nas emissões
Assim como ocorre com as debêntures escriturais de forma geral, a escrituração eletrônica desempenha papel central na viabilização de emissões de debêntures simples em prazos mais curtos, permitindo que o registro de titularidade, a liquidação da oferta e o pagamento de juros e amortizações ocorram de forma integrada, sem depender de processos manuais de conferência entre diferentes partes envolvidas na operação. Para empresas que realizam captações recorrentes ao longo do ano, essa agilidade operacional reduz o tempo entre a decisão de captar recursos e a efetiva disponibilidade do capital em caixa.
A ID CTVM é habilitada pela CVM e pela ANBIMA para atuar como escrituradora, custodiante qualificada e controladora de ativos, funções que sustentam o ciclo completo de uma emissão de debêntures simples, da estruturação inicial ao vencimento final do título. A companhia soma mais de R$53,48 bilhões em ativos sob administração e custódia, parcela relevante distribuída entre operações de renda fixa privada de diferentes prazos e finalidades.
A companhia atende mais de 9 mil contas operacionais ativas, volume que reflete a capacidade de processar, com precisão e agilidade, emissões recorrentes de empresas que utilizam debêntures simples como instrumento permanente de gestão do próprio passivo financeiro.
Instrumento deve seguir relevante independentemente do ciclo
Para Balassiano, as debêntures simples devem seguir relevantes independentemente do ciclo de investimentos em infraestrutura.
“Enquanto o mercado de debêntures incentivadas depende diretamente do apetite por novos projetos de infraestrutura, a debênture simples responde a uma necessidade mais estrutural das empresas, que é financiar sua operação do dia a dia. Isso torna o instrumento menos cíclico”, frisa o diretor da ID CTVM.
Empresas de setores como varejo, serviços e indústria de transformação, menos dependentes de financiamento vinculado a projetos específicos de infraestrutura, tendem a recorrer com mais frequência a debêntures simples justamente pela flexibilidade de destinação dos recursos captados, o que explica a resiliência desse instrumento mesmo em ciclos de menor apetite por debêntures incentivadas.
Papel deve seguir relevante no financiamento corporativo
A expectativa entre especialistas é que as debêntures simples continuem desempenhando papel relevante no financiamento corporativo brasileiro nos próximos anos, especialmente em ciclos de maior incerteza macroeconômica, quando empresas priorizam flexibilidade sobre financiamento vinculado a projetos específicos. Para administradores fiduciários e escrituradores, a capacidade de processar emissões recorrentes com agilidade deve seguir como um diferencial relevante para atender empresas que utilizam o mercado de capitais como fonte permanente de financiamento. Empresas de capital fechado, que não têm acesso à bolsa de valores para captar recursos via emissão de ações, também recorrem com frequência a esse instrumento como alternativa de médio e longo prazo ao financiamento bancário tradicional.




