O futuro da prevenção será personalizado? Por que duas mulheres com a mesma idade podem precisar de estratégias completamente diferentes
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, ex-secretário de Saúde, frisa que, durante décadas, a medicina adotou uma lógica relativamente simples para o rastreamento do câncer de mama: ao atingir determinada idade, praticamente todas as mulheres passavam a seguir recomendações semelhantes para a realização da mamografia. Esse modelo contribuiu para ampliar o diagnóstico precoce em todo o mundo e salvou milhões de vidas. No entanto, o avanço das pesquisas mostrou que mulheres com a mesma idade podem apresentar riscos completamente diferentes de desenvolver a doença.
Essa constatação está levando especialistas a revisar um dos conceitos mais tradicionais da prevenção. Em vez de utilizar apenas a idade como critério para definir quando e com que frequência um exame deve ser realizado, cresce o interesse por estratégias capazes de considerar as características individuais de cada paciente. Esse movimento, conhecido como medicina personalizada, já influencia diretrizes internacionais e pode transformar a forma como os programas de rastreamento serão organizados nas próximas décadas. Continue a leitura e entenda por que a prevenção caminha para um modelo cada vez mais individualizado.
A idade continua importante, mas deixou de ser a única referência
Durante muitos anos, a idade foi considerada o principal fator para definir o início do rastreamento mamográfico, porque o risco de câncer de mama aumenta progressivamente com o envelhecimento. Embora esse critério continue sendo fundamental, ele passou a ser visto como apenas uma parte de uma equação muito mais complexa. Hoje, estudos mostram que duas mulheres de 50 anos podem apresentar probabilidades bastante distintas de desenvolver a doença ao longo da vida.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa diferença ocorre porque o risco individual resulta da combinação de diversos fatores. Histórico familiar de câncer de mama ou ovário, mutações genéticas como BRCA1 e BRCA2, densidade mamária elevada, obesidade, consumo de álcool, uso de terapia hormonal, idade da primeira gestação e outros aspectos clínicos influenciam diretamente essa probabilidade. Em muitos casos, esses fatores modificam o risco de forma mais significativa do que a própria idade.
O que é a estratificação de risco e por que ela está mudando a prevenção?
Nos últimos anos, um conceito ganhou força em centros de pesquisa da Europa e dos Estados Unidos: a estratificação de risco. Em vez de recomendar exatamente o mesmo protocolo para todas as mulheres, esse modelo procura identificar grupos com diferentes probabilidades de desenvolver câncer de mama e adaptar o acompanhamento de acordo com cada perfil.
Para isso, são utilizados modelos matemáticos validados cientificamente, capazes de integrar informações clínicas, familiares, genéticas e radiológicas. Ferramentas como Tyrer-Cuzick, BOADICEA e CanRisk, por exemplo, estimam o risco individual de forma muito mais abrangente do que a simples análise da idade. Conforme observa o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa abordagem permite compreender que prevenção não significa oferecer o mesmo exame para todas as pacientes, mas desenvolver estratégias proporcionais ao risco de cada uma.

A densidade mamária pode mudar completamente a estratégia de rastreamento?
Entre todos os fatores avaliados atualmente, poucos despertaram tanto interesse quanto a densidade mamária. Mamas densas possuem maior quantidade de tecido fibroglandular em relação ao tecido gorduroso, característica que pode dificultar a identificação de pequenas lesões na mamografia e, ao mesmo tempo, estar associada a um aumento do risco de câncer de mama.
Essa descoberta fez com que diversos países passassem a discutir protocolos específicos para mulheres com alta densidade mamária. Em alguns cenários, exames complementares, como tomossíntese, ultrassonografia ou ressonância magnética, podem ser considerados conforme a avaliação médica e o perfil de risco individual. Na avaliação do Dr. Vinicius Rodrigues, esse é um exemplo claro de como a medicina deixou de analisar apenas a idade e passou a considerar um conjunto muito mais amplo de informações para orientar o diagnóstico precoce.
A inteligência artificial poderá definir quando cada mulher deve fazer seus exames?
Outra transformação importante envolve o desenvolvimento de modelos preditivos baseados em inteligência artificial. Diferentemente dos algoritmos utilizados apenas para interpretar imagens, essas ferramentas são treinadas para calcular a probabilidade de uma pessoa desenvolver câncer nos anos seguintes, combinando milhares de informações clínicas, epidemiológicas e radiológicas.
Pesquisas conduzidas por instituições internacionais indicam que esses modelos poderão ajudar a identificar mulheres que se beneficiariam de um acompanhamento mais frequente, enquanto outras poderiam manter intervalos maiores entre os exames sem perda de segurança. Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa evolução representa um dos caminhos mais promissores da medicina preventiva, pois permite direcionar recursos para quem apresenta maior risco, reduzindo exames desnecessários e tornando os programas de rastreamento mais eficientes.
O futuro da prevenção será mais preciso e mais individual
A medicina personalizada não pretende substituir os programas de rastreamento nem criar protocolos diferentes para cada paciente de forma indiscriminada. O objetivo é utilizar o conhecimento científico acumulado nas últimas décadas para compreender que pessoas com características distintas podem se beneficiar de estratégias preventivas diferentes, respeitando seu perfil de risco e suas necessidades clínicas.
Conforme destaca o Dr. Vinicius Rodrigues, essa mudança representa uma evolução importante da prevenção. Em vez de concentrar esforços apenas na idade cronológica, a tendência é integrar fatores genéticos, biológicos, clínicos e tecnológicos para construir programas de rastreamento cada vez mais precisos. Mais do que realizar um número maior de exames, a medicina busca oferecer o exame mais adequado para a paciente certa, no momento mais oportuno, ampliando as chances de diagnóstico precoce e utilizando os recursos da saúde de maneira mais inteligente.




