Aterros sanitários, lixões e novas tecnologias: O cenário atual dos resíduos sólidos no Brasil
Para Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, entre 58% e 61% dos resíduos sólidos urbanos coletados no Brasil são destinados a aterros sanitários. Outros 39% a 41% seguem para lixões ou aterros controlados que não atendem aos padrões ambientais mínimos exigidos pela legislação. Esses números descrevem um país dividido entre o cumprimento parcial da norma e a persistência de um passivo ambiental que deveria ter sido superado anos atrás.
Esse retrato estatístico esconde uma realidade ainda mais complexa: mesmo os municípios que operam com aterros sanitários estão apenas adiando um problema que exige solução estrutural, não uma alternativa melhorada de descarte. Essa é uma leitura essencial para quem toma decisões sobre destinação de RSU, prossiga!
Qual é a diferença real entre lixões, aterros controlados e aterros sanitários?
Os três modelos de disposição final de resíduos sólidos urbanos são frequentemente confundidos, mas apresentam diferenças técnicas, ambientais e legais significativas. O lixão é a forma mais precária de descarte: resíduos são depositados a céu aberto sem qualquer controle técnico, gerando contaminação do solo, das águas subterrâneas e do ar, além de atrair vetores de doenças e criar condições degradantes de trabalho para os catadores que vivem nesses espaços. O aterro controlado representa um avanço mínimo, com cobertura periódica dos resíduos com terra, mas sem impermeabilização adequada do solo, sistema de drenagem de chorume ou controle de gases.
O aterro sanitário, por sua vez, é a solução tecnicamente correta dentro do modelo convencional de disposição final, pois incorpora impermeabilização de base, sistema de coleta e tratamento de chorume, drenagem e queima ou aproveitamento de biogás e cobertura diária dos resíduos. Como observa Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, essa diferença técnica é fundamental para a saúde pública e para a proteção ambiental, mas não elimina o fato de que mesmo os aterros sanitários geram passivo ambiental de longa duração e consomem recursos que poderiam ser melhor aplicados em soluções de valorização de resíduos.
Por que os aterros sanitários não são a solução definitiva para os RSU?
Aceitar os aterros sanitários como solução definitiva para os resíduos sólidos urbanos equivale a aceitar o desperdício como política ambiental. Aterros enterram materiais recicláveis, orgânicos compostáveis e frações com potencial energético que poderiam ser valorizados antes de qualquer forma de disposição final. Além disso, apresentam limitações estruturais que tornam sua escalabilidade cada vez mais problemática: consomem áreas extensas em regiões onde o solo é cada vez mais disputado, exigem monitoramento ambiental permanente por décadas após o encerramento e geram chorume cujo tratamento é técnica e financeiramente desafiador.

Tal como elucida Marcello José Abbud, o Brasil precisa superar a dicotomia entre lixão e aterro sanitário, como se fossem os únicos extremos possíveis da gestão de RSU. Essa lógica binária impede que gestores municipais e formuladores de políticas públicas enxerguem o espectro completo de soluções disponíveis, que vai da valorização de materiais recicláveis à geração de energia a partir de resíduos, passando por tecnologias de tratamento térmico controlado, digestão anaeróbia e decomposição termomagnética de resíduos. O aterro deve ser o último recurso, não o destino padrão.
Como o Brasil pode acelerar a adoção de tecnologias avançadas de tratamento de RSU?
A aceleração da adoção de tecnologias modernas de gestão de resíduos sólidos urbanos no Brasil depende de um conjunto de condições que precisam ser desenvolvidas simultaneamente:
- A primeira é a atualização do marco regulatório, com incentivos claros para a valorização energética de resíduos e penalizações efetivas para a persistência da disposição inadequada;
- A segunda é a ampliação do acesso a financiamentos de longo prazo com condições compatíveis com o ciclo de retorno dos projetos de tratamento de RSU, que tipicamente superam dez anos;
- A terceira é o fortalecimento da capacidade técnica dos municípios para estruturar projetos, negociar contratos e monitorar a qualidade das soluções implantadas.
A partir da análise de Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, a combinação entre regulação inteligente, financiamento acessível e capacidade técnica local é o tripé que sustenta a transição bem-sucedida de qualquer município para soluções modernas de gestão de resíduos.
O cenário atual dos RSU no Brasil exige a superação definitiva do modelo de descarte
Como conclui Marcello José Abbud, o Brasil não pode se dar ao luxo de continuar debatendo qual é o melhor modelo de aterro enquanto o mundo avança para sistemas que dispensam o aterro como destino principal. O cenário atual, com lixões ainda ativos, aterros sanitários prestes a se esgotar e tecnologias modernas ainda restritas a poucos municípios, exige uma resposta sistêmica que combine urgência no encerramento das formas inadequadas de disposição com visão de longo prazo para a construção de infraestrutura baseada em valorização de resíduos, inovação ambiental e economia circular.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez




