O isolamento é uma das formas mais comuns de sustentar o abuso, aponta Taiza Tosatt Eleoterio
Muita gente acredita que o afastamento de amigos e familiares é uma escolha da própria mulher. Taiza Tosatt Eleoterio, profissional que atua com temas de saúde mental e relações familiares, ressalta que o relacionamento abusivo costuma ir cortando laços aos poucos, e o que parece preferência pessoal muitas vezes é consequência de uma pressão que se instala devagar, quase sem ser notada por quem está dentro da relação.
Mito: quem se afasta dos amigos simplesmente escolheu ficar sozinha
A ideia de que o afastamento é uma decisão livre ignora o modo como o controle se constrói. No relacionamento abusivo, o isolamento raramente chega de uma vez. Começa com um comentário sobre a amiga que supostamente influencia mal, com um desconforto diante de cada visita, com uma cobrança de explicações a cada saída. Aos poucos, encontrar as pessoas queridas passa a custar mais caro do que ficar em casa, e a mulher desiste para evitar o conflito.
Na visão de Taiza Tosatt Eleoterio, essa desistência não deve ser lida como falta de vontade ou de apreço pelos outros. Ela é uma adaptação a um ambiente em que cada contato externo vira motivo de tensão. Por isso, cobrar presença de quem está nessa situação costuma agravar a vergonha, e a vergonha, por sua vez, empurra a pessoa ainda mais para dentro do silêncio.
Por que o isolamento ajuda o abuso a continuar?
Quem fica sem interlocutores perde o espelho que ajuda a perceber o que é normal e o que não é. Amigos e familiares funcionam como pontos de comparação: um comentário preocupado, uma estranheza diante de determinada frase, uma pergunta simples sobre como andam as coisas. Sem essas referências, o comportamento controlador vai ganhando ares de rotina, e a mulher passa a duvidar da própria percepção.
Conforme detalha Taiza Tosatt Eleoterio, o corte dos vínculos também reforça a dependência emocional, porque a pessoa que controla passa a ser a única fonte de companhia, de aprovação e até de informação. Quanto menos alternativas existem, mais pesada fica a ideia de sair. É um mecanismo conhecido de quem estuda esse tipo de relação, e entendê-lo ajuda a trocar a pergunta sobre por que ela não vai embora por outra mais justa: o que foi tirado dela até aqui?
Mito: manter contato é insistir até a pessoa reagir
Outro equívoco comum é achar que apoiar significa pressionar. Ligar todos os dias para cobrar uma decisão, exigir que a mulher termine a relação ou criticar o parceiro a cada conversa tende a produzir o efeito contrário. Ela pode passar a esconder o que acontece, evitar o telefone ou até defender quem a machuca, só para não ter de se justificar diante de quem ama.
Como observa Taiza Tosatt Eleoterio, o vínculo que protege é o que não exige nada em troca. Uma mensagem curta, um convite sem cobrança, uma porta aberta que continua aberta mesmo depois de uma recusa: esses gestos parecem pequenos, mas mantêm viva a ligação com o mundo de fora. Para quem apoia, o desafio é ter paciência, porque o tempo da mulher raramente coincide com o de quem observa de longe, aflito para que algo mude logo.
O papel da rede de apoio comunitário na quebra do isolamento
Comunidades, grupos de convivência, instituições religiosas e serviços de assistência social podem funcionar como pontes quando os laços familiares já se desgastaram. Em muitos territórios, é a vizinha atenta, a liderança do bairro ou o grupo de que a mulher participa que oferecem o primeiro contato sem julgamento. Esses espaços ajudam justamente por não pedirem explicações logo de saída, e a confiança vai sendo construída aos poucos.
De acordo com a leitura de Taiza Tosatt Eleoterio, que atua no apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, a rede de apoio comunitário tem mais efeito quando convive com o respeito ao ritmo de cada uma. A fé, quando vivida como acolhimento, também pode sustentar, desde que não ocupe o lugar da proteção nem do acompanhamento profissional. O cuidado está em oferecer presença sem impor caminho, lembrando que a decisão é sempre da própria mulher.
Como reconstruir vínculos depois de um tempo de afastamento?
Retomar amizades e laços familiares costuma ser um processo delicado, porque junto com a saudade aparecem a vergonha, o receio de ser cobrada e a sensação de ter ficado devendo explicações. Quem quer ajudar pode facilitar o reencontro com conversas leves, sem perguntas sobre o passado, e deixando claro que a relação nunca deixou de existir, ainda que tenha ficado em silêncio por um longo período.
Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, o acompanhamento psicanalítico pode oferecer um espaço de escuta em que essa retomada seja pensada sem pressa, com atenção ao que cada vínculo representa. Reaproximar-se de quem foi afastado não é voltar ao ponto em que tudo parou, e sim reconstruir, aos poucos, uma rede capaz de sustentar a pessoa. Quando os laços voltam a circular, a autoestima também encontra onde se apoiar, e o recomeço deixa de depender de uma única pessoa ou de um único gesto.




